Desplacamento e formação de diedros e fissuras
Quem já escalou os diedros da Magia Vertical (Pico da Tijuca), da Oposição Ecologia (contraforte da Pedra da Gávea), da Aquárius (Pedra da Gávea) e da K2 (Corcovado), sabe como é bom subir uma boa via em estilo oposição. Esses diedros têm origem no desplacamento dos paredões.
Lembre-se que os gnaisses e também os granitos são formados a quilômetros de profundidade, em ambientes de altíssima pressão. Quando essas rochas chegam à superfície e encontram uma pressão milhares de vezes menores que o seu ambiente de origem, elas se expandem devido ao processo de alívio de carga ou de pressão. Posteriormente, são formados desplacamentos, que parecem mostrar que os paredões estão se “descascando”, originando placas de espessuras de alguns centímetros a vários metros.
Então essas placas se quebram e soltam enormes lacas e blocos – basta observar as bases dessas paredes. O resultado final pode ser a formação de diedros com fendas verticais em oposição e com larguras diversas. Algumas são tão largas que formam chaminés, como é o caso da Secundo (Pão de Açúcar) ou da Unicec (Dona Marta). Os exemplos mais famosos são as chaminés Stop e Gallotti, formadas pelo o Totem do Pão de Açúcar. O Totem é o que restou de uma placa muito espessa que cobria toda a face sul, mas depois ela foi se quebrando por causa do seu próprio peso, produzindo muitos blocos que rolaram até a base, como a Pedra do Urubu. Inclusive existem várias fraturas que formam as fendas do Lagartão.
A evolução dessas placas também pode formar tetos com fendas horizontais em suas bases, como, por exemplo, a longa oposição horizontal abaixo do teto da via Aquarius (Pedra da Gávea), o teto que fica à esquerda do Cão Danado (Pão de Açúcar) e o que fica na face norte do Corcovado, além de muitos outros. Eles são comuns.
Geralmente, os diedros são formados em gigantescas lacas soltas, que, ao se movimentarem pela gravidade, acabam se quebrando e formam fissuras frontais verticais bem ao lado dos diedros. Algumas são muito finas e até invisíveis a olho nu, mas outras são excelentes para o entalamento dos dedos e das mãos.
Com o tempo, essas placas se movimentam e essas fissuras aumentam de largura, até que a placa cai, dando origem a um novo diedro. Exemplos: a Fissura Tropical que passa à esquerda do Diedro Pégaso (Babilônia), a fissura da Sinfonia do Delírio (Pico dos Quatro) que passa à direita de um grande diedro e a fenda variante do início da Contra Secundo (Pão de Açúcar) que passa à direita de um grande diedro, onde era a via original. Se o escalador observar alguns metros por cima dos diedros, ele poderá achar essas fissuras, mas algumas ainda podem não ser visíveis porque estão em processo de formação.
Recentemente, foi aberta uma nova área de escalada na vertente norte do Pico dos Quatro, conhecida como Circo. Uma placa enorme se destacou da parede, produzindo algumas fissuras novas e estreitas, perfeitas para entalamento de dedos e punhos, como Atirador de Facas Zarolha, Equilibrista Desequilibrado, Palhaço Rabujento, Minhoca Malabarista e Domador de Calangos Descaldados.
Depois dessa leitura, com certeza você vai escalar sabendo mais, mas não precisa dizer “droga, quebrei um cristal de feldspato ortoclásio!”. Basta continuar dizendo “quebrei uma agarra!”. Da mesma forma, você pode continuar gritando “pedraaaa!” quando esta cair, em vez de “rochaaaaaa!”
Antonio Paulo Faria
É montanhista há 30 anos, sem interrupção. Abriu mais de 100 vias de escalada, hoje muitas clássicas. A primeira em 1983/84, no Parque Nacional da Serra do Caparaó. Depois outras no Brasil, mais Argentina, Chile, Colômbia, Canadá, Estados Unidos e Marrocos. Não se considera um escritor, mas um “tirador de ondas”. “Meu objetivo aqui é fazer você rir um pouco e passar algumas informações. Não vou negar que, às vezes, saio dos limites. Vai depender de como você interpretará as minhas historinhas. Se não gostar, reclame com o editor.”